Caeiro, também aqui, é o mestre. Este blogue é mantido por Possidónio Cachapa e todos os que acham por bem participar. A blogar desde 2003.
14 de novembro de 2006
Boa, a entrevista do José Carlos Vasc. ao Saramago, na última edição do JL. Velhos amigos permitem-se a uma franqueza que reverte em benefício do leitor.
Entre muitas frases que nos permitem conhecer a matéria com que moldou as suas narrativas, temos também acesso à origem da melancolia. E, para os mais distraídos, o elucidar daquilo que muitos tomam (também me aconteceu, em tempos, perceber assim) por arrogância e vaidade. É antes o contrário.
E Lanzarote, um lanzarote qualquer, é para muitos nós mais do que um acaso ou possibilidade. Quase um presságio que acabará por tocar outros. Mesmo sem nobeis.
9 de novembro de 2006

AUTO DA FÉ
Como português interessado em livros não quero ficar de fora da nova moda literária. Nem pensar! Lançada recentemente, a moda do escrutinar livros de sucesso à procura de falhas ou repetições está em alta. Gente que não seria capaz de descrever literariamente um burro, se tivesse um espelho, passa agora os dias de lupa em punho à procura do erro. Esta moda, da crítica light, nascida do anonimato dos blogues é na verdade a manifestação simples de uma característica nacional: a pseudo-delação pelos medíocres. Quem estudou a história da perseguição aos judeus em Portugal sabe o que aconteceu a milhares de pessoas, cercadas de gente desta. Acusando disto ou daquilo, apossavam-se depois estes abutres dos despojos do supliciado. Aqui, nem isso. Quanto muito o prazer da lama.
Agora é com repetições e plágios.
Se ser português é ser iníquo, também não quero ficar de fora. Por isso, aproveito já para denunciar um caso complicado em que VÁRIAS pessoas se plagiaram. Os nomes dos miseráveis são (os que consegui apurar): São Mateus, São Joã0 e São Marcos. A história é IGUALZINHA: um tipo que nasce num estábulo e que morre na cruz. Até o nome é o mesmo! Por favor, se alguém puder escrever artigos eruditos ou promover conferências sobre o tema, seria da maior utilidade.
Vou estar a partir de amanhã e até domingo na Madeira, para ajudar a coordenar a Maratona de Vídeo Magnavoce. Espero que muitos aspirantes a cineastas se inscrevam e, de câmara digital na mão se divirtam a receber alguma formação na área do cinema e a criar os seus próprios filmes. Inscrições em www.magnavoce.pt.
E, aproveitando a generosidade deste convite, aproveito para apresentar (com a ajuda de outros amigos) o RIO DA GLÓRIA, no Magnólia. Assim, os madeirenses estão todos convidados para ir no sábado (16h) até este espaço dar dois dedos de conversa e tomar contacto com o livro.
6 de novembro de 2006
2 de novembro de 2006
Ok, ok. Vou-me já calar com o assunto. Antes que isto faça lembrar o blogue dos saudosos Gatos Fedorentos que a partir de certa altura já só nos davam as datas dos espectáculos ao vivo. O que acontece é que um blogue é um sítio de partilha, logo os escritores falam inevitavelmente de livros. E frequentemente dos seus livros. Não por publicidade, como não faltará quem diga. Mas porque são obsessões e escrever ajuda a dar-lhes forma.
Assim(em ficheiro ranhoso de imagem) fica a capa.
A partir de dia 7 nas livrarias do país.E como tem sido no Prazer_Inculto que eu tenho falado mais sobre este projecto, decidi que será aqui o lançamento oficial.
Assim, no dia 8 ou 9, vou colocar aqui videos de vários actores a lerem excertos da obra e o que mais me lembrar. Fazemos assim uma festa. Sem champanhe nem caviar, hélas! que a internet ainda não chegou a tanto. :)
1 de novembro de 2006
Vou dizer uma coisa óbvia (mais uma, diriam os meus de-tractores-puf-puf,lol) mas tudo surge do trabalho. Sou lapalissiano, porque me parece sempre isto uma coisa espantosa. O meu lado mais preguiçoso gosta de sonhar com a possibilidade de conseguir algo de extraordinário sem esforço. Contudo, se fiz até hoje alguma coisa que merecesse alguma atenção, saiu-me de certeza do corpo, do pêlo, do trabalhinho aturado. E este princípio aplica-se a toda a gente que conheço. Não sei de grande escultura que não seja fruto de dias e dias de trabalho. Ou de pintura notável que não tenha custado ao seu criador anos de estudo e prática. Ou de colheita fértil de trigo que não tenha derivado de uma sementeira exaustiva, do arrancar das ervas e do esforço das máquinas e dos homens que as conduziam.,,,
Contudo, continuo a imaginar essa possibilidade, a jogar (ocasionalmente) no euromilhões e a acreditar que um dia vou poder estar perto da Grande Barreira de Coral sem ter gramado mais de 20 horas de voo. Ah, e já agora, sem ter suado para arranjar dinheiro para o bilhete...
Bom, vou trabalhar...
30 de outubro de 2006
29 de outubro de 2006
A p... da gripe voltou a atacar-me. Trouxe a tosse com ela, a ver se me dobrava, e ainda tocou a trombeta do nariz entupido. Debilitado e farto de enfiar mel com aguardente goela abaixo, lá fui à farmácia. Ia pelos Ben-uron (1 euro e não sei quê).
Acontece que o merceeiro de serviço achou pouco.
"Oh... isso não é o mais indicado. Baixa-lhe a febre e tal". E eu estúpido: "Então o que é que acha que...?"
E já o "Cêgripe" (4 euros e tal) em cima da mesa. "E queria tb o medicamento para desentupir, n era...?", a nova maravilha fez a sua aparição. Uma coisa da Vick que faz correr o ranho cara abaixo como se fôssemos Julietas tristes. "Ah... e o xaropezinho para a tosse... não é?"
Mais duas larachas ensaiadas e lá estou à porta, saquinho branco cheio de porcarias na mão e um farmacêutico satisfeito do outro lado. Venha o próximo.
Percebe-se melhor o Sócrates nessas alturas.
ps: espero que a coisa das férias de Natal dos professores não passe de mais um boato da oposição. Ou vou ter de me juntar a eles na próxima manif. Só quem não deu aulas no Básico ou no Secundário é que não percebe a necessidade desse descanso. Aliás, cada vez mais reduzido, dada a invenção todos os anos acrescida de reuniões para discutir o sexo dos anjos, o formulário A para a estatística X ou resolver o estranho caso da MALANDRICE QUE PRENUNCIA O CHUMBO...
26 de outubro de 2006
De vez em quando é pedagógico ser júri do ICAM. Aceitar o desafio com a honesta esperança de "finalmente poder fazer justiça".
Num certo sentido, isso acontece. Se formos honestos e nos distanciarmos dos nossos gostos pessoais em favor de critérios objectivos e diria, algo pomposamente, do interesse nacional.
Mas também dá para perceber duas coisas. A primeira é que há mais boa vontade do que talento. Um cada vez maior número de pessoas quer trabalhar em cinema. O que não quer dizer que saiba escrever um argumento, realizar ou produzir um filme. Ou, na maior parte dos casos, que tenha tido sequer uma formação séria e competente nessa área. Mas sobre o ensino artístico haveria mais a dizer, nomeadamente sobre QUEM anda a ensinar o QUÊ e COMO....
A segunda, é que a coisa é bastante matemática. Cada membro do júri aprecia um projecto, segundo critérios claros e atribui uma votação de acordo com esses critérios. O resultado final, em geral, surpreende toda a gente. Mas esse é o problema da democracia: o mínimo denominador comum.
Se juntarmos a isto, a chusma de pessoas que se vão sentir injustiçadas, ou simplesmente feridas nos inchados egos, ficamos próximos do trabalho missionário-suicida.
Ao contrário do que parece. Contra mim falo.
25 de outubro de 2006
Subitamente descubro o porquê de alguma autocensura que me tolheu em certos escritos. Fui contagiado pela falta de humor nacional. Não podemos rir de nós mesmos. Tudo o que eu disser será tomado como um ataque a isto ou aquilo.
Penso no "Rio da Glória", que brinca com a literatura light, com as diversas igrejas, com a crítica literária, com a visão que muitos brasileiros têm do país colonizador distante, e com vário outros assuntos intocáveis e sorrio.
Eta chuva de pedras que aí vem! :)
22 de outubro de 2006
É domingo e chove.
Na caixa de correio chega-me o que parece ser a versão legítima da "Nota Pastoral do Conselho Permanente Conferência Episcopal Portuguesa sobreo referendo ao aborto".
Aparentemente o novo chefe dos bispos católicos, no seu ar bonacheirão, democrata e familiar até, achou por bem esclarecer as coisas. Que não haja confusões: a coisa é para ficar como está. As mulheres devem continuar a malhar com os ossos na cadeia se tiverem a triste ideia de se enfiarem num vão de escada para serem raspadas e sangradas. O que é bem feito, para não serem todas umas putas, ingratas ainda por cima, que não só tiveram a ousadia de terem o que eles, bispos, não podem ter, sexo, como ainda não querem ficar com todos os filhos que dali saírem. O inferno depois de mortas não será suficiente. É preciso ameaçá-las com o inferno em vida.
Resumindo, o texto diz o seguinte:
"Nós, Bispos Católicos, sentimos perplexidade acerca desta situação. Antes de mais porque acreditamos, como o fez a Igreja desde os primeiros séculos,que a vida humana, com toda a sua dignidade, existe desde o primeiro momento da concepção." Daqui, a reter a frase "desde os primeiros séculos".
"..Para os fiéis católicos o aborto provocado é um pecado grave porque éuma violação do 5º Mandamento da Lei de Deus, ?não matarás?, e é-o mesmoquando legalmente permitido"
"Não podemos, pois, deixar de dizer aos fiéis católicos que devem votar "não" e ajudar a esclarecer outras pessoas sobre a dignidade da vidahumana, desde o seu primeiro momento." Daqui basta fixar "não" e "esclarecer".
"Pensamos particularmente nos jovens, muitos dos quais votam pela primeira vez e para quem a vida é uma paixão e tem de ser uma descoberta." Sobre o empenho dos padres em participar da descoberta da paixão dos jovens, já ouvimos falar o suficiente.
"O aborto não é um direito da mulher. Ninguém tem direito de decidir se um ser humano vive ou não vive, mesmo que seja a mãe que o acolheu no seu ventre. A mulher tem o direito de decidir se concebe ou não." É bonita e romântica esta ideia de acolher no seu ventre. Calculo que no recato das sua cela, quem escreve estas coisas imagine que o homem estenda a mão graciosamente e entregue uma gota de precioso líquido que a mulher deposita sobre o ventre e que no mesmo instante se transforma numa linda criança rosada.
Nem por um momento referem o que fazer com os julgamentos das mulheres ou com o facto de defender o sim neste referendo não ser uma aprovação do acto mas apenas o libertar das consciências de quem se vê em tribunal por ter feito algo que a destruiu um pouco.
Do meu ponto de vista toda a celeuma levantada por estas instituições deriva de duas questões: sexo e mulheres. O sexo se não é para eles não deve ser para ninguém. E as mulheres, já que existem, devem ficar-se no papel de mães. De parideiras acolhedoras.
Tudo isto estaria muito bem se não houvesse um movimento decidido e que irá votar em massa no dia do referendo,pelo Não. Enquanto os bananas do Sim, hão-de estar enfiados em centros comerciais ou em casa a discutir Proust, para depois se lamentarem de que "não percebem como aconteceu".
É domingo e chove no meu país provinciano.
19 de outubro de 2006
Há já alguns anos que me dedico a ler a proposta de orçamento de estado, pela internet. AQUI Serve isto para ter uma noção do rumo que o país vai tomar e para distinguir o trigo do joio. Assim, quando aparecem tipos muito sérios na comunicação social a dizer que agora é só maravilhas, ou o contrário, consigo focar-me nas razões que movem a criatura em vez de no seu truque de prestidigitação.
Este ano, contudo, o meu interesse estava na Cultura. Tive que aguentar até à página 239 de um relatório de 261. Já se vê a importância que este governo lhe atribui. O orçamento que representa 0,4% (zero vírgula quatro por cento) do orçamento geral, diminuiu 7%. Em média, os ministérios viram as suas verbas reduzidas em 5%.
Claro que isto se deve, do meu ponto de vista a 3 factores. Primeiro, não é um sector prioritário num orçamento restrictivo, ou obrigatório (como o da Defesa, por exemplo, que consome dezenas de milhar de milhões de euros), do ponto de vista de um engenheiro. Segundo, o desempenho deste ministério no ano transacto pede, claramente, um cartão vermelho. Terceiro, basta ler as propostas da ministra e do seu secretário de estado para perceber a ausência de visão e ideias.
Logo, do ponto de vista socrático, para quem é, bacalhau basta.
18 de outubro de 2006
A MULTA
Hoje, quando cheguei ao local onde ontem, debaixo de chuva, depois de HORAS a procurar lugar parei o carro, tinha uma multa. Eram 10h da manhã e o guarda Abílio tinha passado às 9.13h. E lá escreveu, com a sua letrinha pré-9ºano "60 euros". A coisa chateou-me, sobretudo por estar a contar com este acordo tácito que existe nas zonas superpovoadas de Lisboa de não se multar nas primeiras horas da manhã, a não ser que o carro esteja a prejudicar alguém. O que não era, de todo, o caso. Enfim, a verdade é que a floresta de carros onde o meu desgraçado de quatro rodas se encaixava se tinha sumido antes do guarda aparecer. Azar o meu.
Mas fiquei lixado.
Da mesma forma que ficam lixados, os portugueses a quem se estão a tirar regalias. Não interessa se a situação é incomportável para o país, o facto é que lhes estão a mexer no bolso ou na segurança com que contavam. Isto é muito compreensível. O que não impede que o guarda Abílio, talvez em excesso de zelo, estivesse a fazer o que tinha de fazer.

16 de outubro de 2006
Deveríamos ter tomado como um sinal, o facto do primeiro gesto simbólico do actual governo ter sido o de retirar poder ao polvo farmacêutico. Desde aí, já se meteu com os autarcas, com o Alberto João, com todos os sindicatos, com os biliões de funcionários públicos, para citar apenas alguns dos elementos que gostariam que ficássemos quietinhos enquanto o barco ia ao fundo.
"Kamikaze", seria um bom nome para esta missão.
ps: enquanto escrevo isto, na RTP1, os autarcas batem no peito e invocam o testemunho da virgem sobre a sua honestidade. É divertidíssimo. Vê-los torcerem-se à medida que os fontanários, em vésperas de eleições, se afastam, quero dizer.

NOVO EXCERTO
A pedido, aqui fica um novo excerto do RIO DA GLÓRIA. Trata-se de um momento de uma história que Mário, uma das personagens principais, ouve contar. E é em virtude do relato das desventuras de Zeca Fumaça, que aqui se esboçam, que ele decide mudar o rumo do seu percurso.
"Viu-lhe primeiro o rabo temível, oscilando de um lado
para o outro, sinal de ferocidade. Depois o corpo malhado. E,
finalmente, a grande boca sangrenta dentro do peito aberto de
Jandira. A onça-pintada comia os órgãos que ainda há pouco
se ocultavam sobre os seios fartos da mulher. A onça alimentava-
se de tudo o que sustinha Zeca Fumaça, como se jantasse
na mesa de um padre em deboche. A dor bateu em Zeca como
uma montanha de pedras que lhe desabasse sobre o corpo e a
cabeça. Da sua boca saiu o grito "Jandira!", e precipitou-se,
a faca em punho, na direcção do animal. Era preciso soltar a
mulher, quem sabe ressuscitá-la. A onça não estava disposta
a ceder o seu bocado. Recebeu Zeca com as garras abertas e
as patas na frente do corpo. Mas ele nem sentiu as feridas,
ocupado com a visão da mulher pedindo socorro, morta.
Cravou a faca no bicho, uma, duas, mil vezes, até que um véu
opaco desceu sobre os olhos do animal e um de tule negro
sobre os seus. Quando acordou, tinha uma onça no peito e
tudo o mais desaparecera da sua vida...."
Sabemos tudo, na nossa imensa ignorância. Quando estamos em casa, claro, que quando se vive fora ou se sai regularmente percebe-se melhor quem somos.

Vai ao programa da manhã da tv pública, já ouviu falar de Pessoa e concorda até que foi um grande locutor, embora goste mais do Jorge Gabriel. O seu sonho é ser suficientemente rico para poder dizer barbaridades de manhã à noite e ter gente a abanar a cabeça que sim.

A espécie mais comum. "Sim, sim, estás para aí a falar, quero ver quando é me enrabas. Deves de estar a ganhar pouco, deves... pra tares aí com essa conversa toda..."
Engole tudo o que lhe dizem, desde que não o contrariem nos protestos. Já leu "O Código Da Vinci" e assistiu a um concerto da Marisa Monte.
15 de outubro de 2006
...perguntava ontem um amigo meu, pouco dado às novas tecnologias (é mais surf, desenho e tudo o que meta o contacto entre as mãos e a criação).
Eu lá dei uma resposta sofrível e vagamente clara.
Mas quando dou uma vista de olhos ao sitemeter e vejo não só a origem mas o que procuram no prazer_inculto, os milhares de pessoas que todas as semanas fazem o favor de aqui entrar (outras encalham, por acaso, e apressam-se a sair, claro), vindas de todo o mundo, percebo que um blogue é mais do que o sítio onde um tipo diz o que lhe apetece sobre o que lhe apetece. É sobretudo um lugar de partilha. Uns buscam informação, outros opinião, alguns têm apenas curiosidade em saber se existe uma coincidência entre quem escreve livros e quem exerce a cidadania. Alguns, não fazem sequer ideia do que se está a dizer. Nem dominam a língua. Mas ainda assim, picam fotografias ou desenhos que foram tirados em Tróia, ou nos Açores, ou da janela de casa e levam-nos com eles, para os seus próprios blogues. Para ilustrar novas ideias noutras línguas.
E isso, só pode ter o nome de partilha.
Houve quem considerasse exagerada a declaração do ministro: "Acabou a crise".
Eu, incluído. Porque ainda nessa manhã tinha andado na rua, no metro e nos autocarros, e escutado as pessoas. Grupos de 3 e 4 pessoas acabadas de serem despedidas, reformados a contar (literalmente) os centavos para o pão, outras ao telemóvel a gritarem enervadas com quem não lhes pagava...
Mas hoje, ao chegar ao centro comercial Vasco da Gama, percebi que estava enganado. Havia milhares de pessoas lá dentro. De uma loja para a outra, como se o Natal tivesse chegado mais cedo. E, sim, tinham sacos de compras nas mãos.
No cinema onde entrei para assistir a uma comédia a fila vinha até à porta. Famílias inteiras gastavam 5.20 euros por pessoa, acrescidos de mais 3 ou não sei quanto, por baldes gigantes de pipocas e de coca-cola. Eram 18h de domingo. Quando saí do filme, duas horas depois, ainda não havia lugar para pousar o tabuleiro da fast food...
De maneira que, senhor ministro, apesar de cá em casa não ser assim, deve ter razão. A crise é capaz de ter acabado. Pelo menos até ao final da semana.
13 de outubro de 2006
Pronto... Agora é definitivo. Vem aí o RIO DA GLÓRIA. 396 páginas que começam assim:
"São seis horas e ainda tudo dorme nos campos. Cobertos
de geada, mesmo se ainda é Outubro. O Volvo atravessa a estrada
de paralelos, veloz. Dos dois lados do caminho, as árvores
começam a secar; salgueiros e carrasqueiros misturados
numa cor mortiça. O motor é potente e acorda as lebres que se
mexem sobressaltadas nos seus abrigos de espinheiro. Lá dentro,
o homem olha para trás para ver se a menina está adormecida.
Não está: mira tudo com os olhos azuis muito abertos.
As nuvens coladas aos olhos. Os galhos das árvores a arranharem
na passagem. Treme no seu casaquinho de malha. A sua
pequena mão repousa sobre o colo da mulher nova e bonita.
Tão bonita. Tão nova. O penteado ao alto, os lábios apertados
no batom carmesim. Não responde aos olhares que a menina
lhe deita, olha em frente, deixando que a planície passe, fria,
por ela."

O Prémio Nobel da Paz foi atribuído a Muhammad Yunus, do Bangladesh, e ao seu banco Grameen, "pelo esforços na criação de desenvolvimento económico e social através de projectos de microcrédito".
Parece-me, um dos prémios mais justos dos últimos anos.
Esta ideia de confiar nos pobres é cada vez mais peregrina no mundo. Nos vários sentidos da palavra. Agora confia-se em quem não precisa. Vai-se ao banco pedir um empréstimo e eles querem saber se temos muito dinheiro, para confiarem. Ora se tivéssemos muito dinheiro não precisaríamos de lá ir. Pensamos nós. Errado. O dinheiro dos bancos não tem uma função social. Serve apenas de instrumento de troca e enriquecimento. Para permitir aos seus accionistas e administradores ir de férias para a Caledónia, em jacto privado (alguns com o cilício na bagagem, por causa do detector de metais), enquanto o resto, que somos nós, nem para ir a Tróia conseguimos poupar.
Yunus não pensou assim. Acreditou na honestidade dos que só podem ter a honestidade como bem. Do que eu conheço do mundo dos que têm muito pouco, sei que a maioria é estupidamente honesta. E que só quer uma oportunidade de poupar aos filhos o sofrimento que lhe foi infligido.
Se isto não merece um prémio nobel, não sei o que o mereça.
12 de outubro de 2006
11 de outubro de 2006
Marques Mendes...
O homem irrita-me. E não é por ser pequenino que eu também não sou grande. Até simpatizava com o nick ("shorty") que a miudagem de Carcavelos ou lá onde é que era lhe dava quando estendia o corpito na prancha de bodyboard. Mas desde que conseguiu, em tempo de vacas magras, chegar ao poder partidário, anda insuportável.
Esta de aproveitar a mais do que ansiada tentativa de um primeiro-ministro de dar alguma ordem ao despesismo local e regional foi patética e demagógica. E demonstrativa que ele não chegou à direcção do seu partido com paninhos quentes, mas por um aproveitamento de "coninhas", que ele há-de ser, apontando o dedo ao menino mil vezes mais corajoso do que ele: "Sra professora, o Sócrates estava a segurar os braços dos grandalhões. E eles coitadinhos só queriam continuar a comer o almoço dos outros meninos!"
Oh, shorty, vai lá brincar para o recreio, pá.

Antonio-Mancini-The-Poor-Schoolboy-
10 de outubro de 2006
9 de outubro de 2006
"Transe" o filme de Teresa Villaverde é de novo um trabalho interessante da realizadora. Depois do auspicioso "OS Mutantes", voltamos a ver a sua actriz-fétiche (com um bocado de exagero na afirmação) a abrir, como uma sequela, este novo filme. E vai, de facto, bem, num papel difícil.
As únicas fragilidades do filme derivam de erros de argumento. Sobretudo de estrutura (que calculo é capaz de ter existido, em tempos...). Embora este guião esteja já melhorzinho do que n'OS MUTANTES e, ao que dizem, a quilómetros do penoso ÁGUA E SAL. Mas Teresa Villaverde, tal como a esmagadora maioria dos realizadores portugueses, não só não percebe um boi de como se escreve um argumento, como nem sequer tem consciência disso. O resultado é um meio de filme um bocadinho penoso e uma sequência com um maluco libidinoso, que não estando mal, foi ali metida à cacetada.
Mas ainda assim, um filme a ver.
5 de outubro de 2006
Quando entramos numa loja de artigos baratos, que nascem como cogumelos nas nossas ruas, esquecemo-nos sempre que estamos a financiar uma das piores ditaduras do mundo. Um lugar onde a condenação à morte é quase certa, para os crimes que a prevêm (tráfico de droga, etc...). Mas com a aproximação dos olhares do mundo nos jogos olímpicos e a imagem de país de grandes negócios, as autoridades chinesas resolveram mostrar-se compadecidas. Assim, vão acabar com os tiros na cabeça à beira de valas da praxe. Agora, modernizaram-se com autocarros equipados com camas de injecção letal. Uma prova do bom coração chinês.
Mais informação aqui e aqui.
Logo de manhã, fico a saber pelo boletim da junta de freguesia que estão a ser feitas coisas pensadas "à " muito tempo... (Penha rules!)
Depois, desperdiçando tempo pela net, descubro num site de artistas de telenovela, o contentamento que muitos têm ao "pisar o palco" e ao "dar nas vistas". No primeiro caso, acho que o palco ainda se queixa das pisadelas. No segundo, têm toda a razão: ver a representação da maioria dele é como levar com um porrete nos olhos. Dá mesmo nas vistas.
Perplexo com este vocabulário, leio uma jovem, produzida e ambiciosa taróloga que, no Sapo, me garante que vou resolver assuntos que "me andam a tirar o sonho..."
Ok.
3 de outubro de 2006
As eleições no Brasil conseguiram ser previsíveis e surpreendentes, a um tempo. Previsível, a maioria de votos em Lula. Apesar de ser necessária uma segunda volta para o eleger, é a vitória da falta de escolha. Os democratas brasileiros, melhor dizendo, a maioria dos brasileiros, tiveram de engolir o sentimento de desencanto e traição a todo um conjunto de promessas e votar de novo no ex-salvador da esperança.
Surpreendente foi o triunfo da sem-vergonhice, com a votação em massa do corrupto antigo governador de São Paulo, Maluf. Uma operação mãos-limpas seria ineficaz nele. Seria necessária uma operação mãos-desinfectadas com nitroglicerina, para limpar toda a sujeira produzida contra o povo brasileiro. Esta desgraça foi ainda sublinhada pela eleição por Alagoas, de Collor, o homem deposto por um país indignado (um abraço para o meu amigo Alaor que ajudou a redigir o texto do impeachement).
Como cereja em cima do gâteaux, a reeleição de vários deputados envolvidos nos escândalos que abalaram o país nos últimos anos (mensalões, ambulâncias...) .
Só me resta enviar daqui, um abraço e votos de muita coragem para todos os meus amigos intelectuais, homens e mulheres inteligentes que vão ter que viver com isto. Se serve de alguma coisa, a gente está com vocês de coração.
29 de setembro de 2006

NEWS FLASH
Pausa para partilhar com os meus leitores de romances que o meu livro acaba de mudar de título. Dito assim, soa frívolo. Mas, do lado de cá, é um bocadinho como uma vala que se abrisse entre mim e o que escrevi. Tenho de ir à floresta à procura de uma árvore que possa estender entre o sítio em que eu me encontro e pedaço de terra onde as histórias estão a acontecer. O LIVRO DA GLÓRIA jaz lá no fundo. Caído pelo peso da sua pomposidade. Sinto por ele alguma compaixão, mas teve o destino das coisas que não se sabem adaptar ao novo curso das coisas. Estou no escuro e os nomes que aparecem, ao fundo, são ainda pássaros sem nome voando sobre palmeiras...
A propósito e-mail enviado por Vera Futscher relativo à demolição da Casa de Garret em baixo referido:
"A casa de Garrett poderia ter sido um pretexto. Não para o reduzir a um «equipamento» alimentado à custa de mundos e fundos, mas um pretexto para recentrar a memória colectiva, como que a recordar que o mundo não começou ontem. Um pretexto ainda para fazer descobrir ou redescobrir a sua obra, não apenas o seu nome ou o prestígio de monumento que automaticamente se lhe associa, e de nela rastrear a dimensão humana do seu Autor. A reconstituição minuciosa dos interiores poderia ter sido um momento de grande criatividade e cooperação interdisciplinar. Mas enfim, nada se criou, tudo se perdeu: nada ficou que pudesse ser transformado." http://www.casadegarrett.blogspot.com/ .
A questão de fundo é que não gostamos dos nossos melhores. Dos que nos acordam para aspectos da vida em que nunca teríamos pensado. Dos que nos levantam da nossa propensão natural para o troglodita. Ouvimo-los com ar blasé, como se também fôssemos capazes de descobrir as mesmas coisas sem ajuda. Que ninguém nos incomode com o pensamento de que seria bom assegurar que esta vida, generosa para nós, pode precisar de coisas como alimento, um tecto, o nosso agradecimento. Ou simplesmente ser lida. Fizemos isso com todos os que nos precederam: Camões, António José da Silva, Pessoa, o Miguéis. Não destruímos o Saramago porque ganhou um Nobel. Mas não há dia em que haja alguém que lhe não roa as canelas. E todos os dias nos esquecemos dos nossos poetas vivos. Dos prosadores com mais de 70 anos e que insistem em se manter entre nós para lá dos livros da escola. Ficamos calados à espera que morram. Que parem de nos esfregar na cara que não somos todos iguais no deslindar do mundo. Que há quem veja um bocadinho mais à frente na escuridão que nos envolve.
Depois de mortos, damos os seus nomes a ruas de subúrbio que mais tarde ou mais cedo farão parte da gigantesca metrópolis.
A casa do Garret vai abaixo? Normal, pelo que atrás foi dito. Pessoalmente preocupo-me mais em que o almoço do Cesariny lhe chegue quente a casa. Ou que nunca falte ao Herberto Hélder com que se abrigar. Mas tem a Vera razão quando refere o desprezo pela cultura. Acontece, que já o Eça (quase todo publicado postumamente) o dizia. E ainda estava vivo.
26 de setembro de 2006
Alguém deveria prevenir os aspirantes a escritor da existência da revisão. Quando se compra um livro imagina-se, geralmente, que está ali o fruto de alguma inspiração e de umas noitadas de trabalho (coisa de prazer e êxtase). Não é bem assim. Um romance é fruto de um longo trabalho de investigação, tentativa de domesticação de ideias díspares e muitos, muitos dias em que não se fez mais nada. Com o tempo e a experiência, este trabalho torna-se, ao contrário do que se possa pensar, mais lento e moroso. Os pormenores ganham uma importância extraordinária e a compreensão de que nada deve ser deixado ao acaso, apossa-se de nós.
Por isso, nesta noite, em que vou terminar de avalizar e acrescentar o enorme esforço do revisor, vejo as 397 páginas, subdivididas em 89.792 palavras ou 514.042 caracteres, como uma paisagem extensa que aguarda, tranquila, os leitores. Debruço-me sobre as sinalefas vermelhas e sobre as frases que construí ao longo destes anos com a concentração do copista. E constato que a impaciência que me tomava dantes pelo aperfeiçoar dos textos escritos desapareceu.
Resta a serenidade e, se tiver sorte, a Literatura.
24 de setembro de 2006
18 de setembro de 2006
A Internet e outros suportes/transmissores de imagem e som trouxeram uma mudança ao conhecimento humano que ainda não conseguimos avaliar. Mesmo para as gerações jovens era impossível até há pouco tempo ter a certeza exacta de que um filme ou uma música assistidos na infância eram verdadeiramete como nos lembrávamos. A tendência da memória de longa duração é a de eliminar os pormenores não-essenciais e de dourar os aspectos vulgares. Daí que se fique feliz com a memória de um passeio à Costa ou de um filme em que a protagonista era uma lontra. Os dvds, com a republicação dos êxitos vintage vieram alterar tudo isso. A qualidade ou está lá ou não (é por isso que o José Barata Moura será sempre grande e o Avô Cantigas não se safa...).
A internet vai mais longe. Deixa-nos reconstituir ao detalhe aquilo que conhecíamos, solidificando de forma exacta a memória. Não sei se isto é bom ou mau. Mas uma lucidez qualquer é capaz de nascer desta situação.
Dá-me sempre vontade de rir assistir ao deslumbramento das pessoas pelo que é "moderno", "actual". Pelo artista que retrata o seu tempo, como se nessa identificação pudesse haver outra coisa que não seja o mero reflexo do que se está a viver. Há, nos meios intelectuais, uma atracção compulsiva pela "última linguagem", que amanhã será a "linguagem out", tal como o último deslumbramento já passou, sem que se tirassem daí as necessárias conclusões sobre a noção de "temporal".
Para quem ainda tiver dúvidas, fica este exemplo onde todos os detalhes foram estudados à exaustão... na óptica dos anos 80.
ps: I rest my case.
17 de setembro de 2006
14 de setembro de 2006

HAVANA, FILME PERDIDO
O que acontece quando um actor de Hollywood arranja dinheiro para realizar o seu sonho de dirigir um filme, esquecendo-se que um bocadinho de talento, um réstea, um tremeluzir... seria útil? É assim LOST CITY, o pavoroso filme de Andy Garcia. Quem quiser ver um actor a fingir que realiza, enquanto copia todos os clichés do mundo, faça favor de ir comprar bilhete. Os mais sensatos, abstenham-se. Eu fui ao engano, no Optimus Open Air. E, apesar do bilhete ser de graça, ainda tive vontade de ir pedir o reembolso.
Fujam!
10 de setembro de 2006
Em conversa com A. lembrei-me desta crónica, publicada originalmente no JL e o ano passado, n'O MEU QUERIDO TITANIC. E porque está calor e ainda falta muito para se ouvirem os guizos, se enfeitarem as árvores e se pensar nos outros, publico-a aqui. De graça, para os meus não-leitores de livros.
"MERRY CHRISTMAS MR. GOD
Está frio, na minha sala com quadros na parede e um sofá simples mas confortável. Arrefeceu bastante, este Inverno. Daquele frio estúpido de quem mora ao pé da água e longe de montanhas que tragam neve. O telemóvel toca. É um amigo que mora longe e tem um motorolacinquenta. Dói-lhe já não sei o quê. Mas nada que não possa curar com um ida ao médico que ele poderá pagar. Vem-me à cabeça a imagem de um dos muitos sem-abrigo que se espalham pela cidade. Aquele telemóvel dava para umas quarenta refeições decentes, pelo menos...
Na televisão passam projecções eleitorais e agitar de bandeirinhas. Quanto terá custado todo este circo partidário? Não foi de borla, de certeza... De boleia com um motorista e dono de pequena agência publicitária, na província, fiquei no outro dia a saber que os outdoor são, agora, feitos em vinil. Para não se estragarem com a chuva, diz-me. Por umas centenas de contos podemos ver a cara escarrapachada dos candidatos ao poder, até o Chico vir da areia. O que quer dizer, por mais tempo do a duração das suas promessas. Ainda bem que se evoluiu: já parecia mal ver os papéis dos cartazes a murcharem em direcção aos buracos das ruas. Afinal já somos Europa.
Esta tarde, um actor de telenovela afirmava que "Natal era tempo de pensar nos outros". Fiquei varado de espanto. Nunca teria esta revelação se não fosse ele? Durante uns dias vamos dividir o que normalmente puxamos só para nós. Só não percebi se o prazo acabava mesmo à meia-noite de dia 25 ou se me era permitido ajudar os menos afortunados de vez em quando...
Já é tarde. O alcoólico que costumo ver deitado em papelões num recanto da D.Luis I já deve estar a dormir. Com que sonhará ele? Provavelmente com uma cama macia e um cobertor por cima. Lembro-me de Primo Levi, um escritor judeu italiano que sobreviveu a um campo de concentração, e interrogo-me em nome de quê conservamos gente a passar fome às nossas portas.
Imagino uma oração que começasse assim:
"Bem-aventurados os que acreditam que é necessária uma quadra festiva para se estar com os outros; os que julgam que o mundo é o mesmo desde que Deus o criou e que sempre assim será, ou por que outra razão ele o teria construído imperfeito; os que constroem estradas sobre estradas não se lembrando que um círculo não é mais que a junção de duas rectas tontas que não sabem onde para onde vão; os que defendem os direitos dos fumadores contra os fanáticos da saúde e que julgam ser sua a voz que lhes sai da garganta e não o som da droga mascarada de coisa avançada; os que se suicidam em nome de Alá, primos dos que mandaram executar judeus em nome de Cristo e irmãos dos que avançam com tanques pelas palestinas terras escritas sabe-deus-por-quem num bestseller chamado «Bíblia» e que tomam um prepúcio mutilado pelos homens como um sinal de imunidade divina; os que votam em candidatos que dizem transformar cidades-inferno em jardins-paraíso com um toque de magia; aos que têm tomates para mentir descaradamente a indispensabilidade de Valores Absolutos, enquanto à noite despem o fato e partem para engates nos seus carros de dez-mil-contos-pra-cima; às mulheres que dizem votar em consciência contra a despenalização do aborto e, na semana seguinte, vão (usando a expressão M.E.C.iana) «abrir as pernas a Londres», livrando-se do descuido; aos brancos que constroem casas à prova de pretos famintos; aos pretos que constroem casas à prova de brancos esfarrapados; aos preto e brancos que constroem casas à prova de todos os que não são iguais a si próprios; aos que julgam que o dinheiro que metem ao domingo na caixa das esmolas para a Senhora do Imaculado Coração, ou paras almas do Purgatório, vai direitinha aos pobres do mundo; aos que caminham embriagados para as catedrais de futebol e, beijando os cachecóis, dizem: «Isto é que é sagrado»; aos que julgam que as vozes discordantes se calam com manobras perversas, murros na boca e despedimentos; aos que bateram hoje nos seus filhos, julgando estar a dar-lhes uma mensagem de amor; às mães que se julgam pai e mãe; aos pais que se julgam mãe e pai; aos que cortam o cabelo no mesmo barbeiro do pai, porque não concebem que haja outra forma de talhar o bonito louro; aos que criaram uma ruga no meio da testa por tanto criticarem o mundo em vez de tentarem compreendê-lo nas suas imperfeições; aos jovens que acreditam que serão assim para sempre e que não existe nada para lá da perfeição dos seus corpos; aos Pais-Natais que se juntam às portas dos centros comerciais deixando as crianças confusas com o milagre da sua multiplicação; aos mesmos que descem de helicóptero em colégios pobres ostentando os logos das empresas patrocinadoras... Porque é deles, segundo o bestseller, o Reino dos Céus.
E já agora..." Bem-aventurados:
Os que abraçaram hoje de manhã aqueles com quem vivem; os que se voluntarizam todo o ano para encontrar roupas, comidas e palavras de reconforto e levam tudo isso aos vãos de escada húmidos, tresandando a urina; aos que acreditam que é possível viver sem mentir aos outros; aos que crêem que o mundo é mais imperfeito que a Vida; aos poetas, por verem as várias dimensões do mundo e tentarem pôr em palavras a linguagem do Invisível; aos frades de toda a espécie que se levantam cedo e no desconforto das suas celas se sentem felizes por estarem habitados por uma luz maior que natural; às mulheres que lavam escadas para pôr o pão no prato de filhos que, em troca, lhes cospem em cima e reclamam ténis de vinte contos ou mais; aos homens que amassam cimento e pregam tábuas, em silêncio, para que atrás referidos atletas se divirtam em tertúlias e orgias de batas pretas e cervejolas; os que atravessaram continentes para no meio de línguas estranhas e máfias exploradoras tentarem criar uma família; os que irão morrer por estarem algures no mundo a dar vacinas e a meter colheres de alimentos na boca de crianças com a face coberta de moscas, enquanto à sua volta, famintos desconfiados discorrem sobre o que fará este estrangeiro no meio deles e se será muito difícil estrangulá-los e fugir com o seu relógios que parece valioso Bem-aventurados os que amam... Porque deles, deveria ser o Reino da Terra..."
Estranho... De repente, a minha sala amornou... Feliz Natal."
in O MEU QUERIDO TITANIC
9 de setembro de 2006
Por uma vez, as nossas pides de trazer por casa não gastaram o seu tempo a gravar os mexericos das actrizes das novelas e a vendê-los aos jornais de escândalos. Usaram um bocadinho dos seus dias de trabalho para tentar encontrar provas para aquilo que todos nós sabemos há anos e anos. Mas não servirá para nada, este esforço, enquanto tivermos um sistema judicial que permite que uma prova "deixe de existir" porque não foi cumprida uma formalidade legal. Enquanto não se tirar esse inacreditável tapete dos pés dos advogados pagos a peso de ouro pelas máfias futebolísticas e outras, a ideia de "Justiça" não passará de uma anedota. "Vi, ouvi, houve crime, mas o guarda republicano esqueceu-se de preencher a alínea 22 do formulário, por isso, vá na paz do senhor"... Ora tenham dó da gente.
7 de setembro de 2006

A DINASTIA
Um grupo de pais e de filhos, vestidos com roupas de opereta, fazem a mesma cara com que os juízes da coroa julgaram o Tiradentes e entram na arena. Vão orgulhosos e felizes por aquecerem as brasas moribundas de uma crueldade que se julgava perdida. Em breve enfiarão ferros na carne de um animal criado apenas para morrer por isto. Pela crueldade. Pela visão da crueldade. Mostra-se o bicho - que até tem nome - e de relance vemos-lhe as carnes que se dilaceram, o sangue que espirra e pressentimos o ritmo cardíaco que dispara. É o pior de Portugal a vir ao de cima.
A pergunta é: o que faz a televisão pública, que devia estar na vanguarda do pensamento humanista, ali? Por que razão, semana após semana, o dinheiro dos contribuintes é gasto com a transmissão em directo da tortura de animais? Alguém me explica?
28 de agosto de 2006
Uma última vírgula, uma frase ajeitada e o "LIvro da Glória" entra na fila dos anexos, à espera do chamamento do e-mail para a editora. Vai contente, vagamente ansioso. Mas é normal, acabou de chegar a este mundo. Sabe que ainda tem as vírgulas trocadas e que muitos artigos definidos se perderam pelo caminho.
Quatro da manhã e em várias partes do mundo está-se em guerra. Noutras, haverá pessoas a dormir, encolhidas em buracos, tentando iludir a fome até que a manhã chegue. Enquanto um romance viaja pela net, alguém cai para o lado, exausto, tocado ainda pelo êxtase do outro corpo. Nalgum hospital perto, estará uma criança a nascer e um homem velho a despedir-se do mundo. E enquanto o vento empurra o cortinado do quarto de onde escrevo, pergunto-me para que serve aquele livro que segue em anexo para o revisor...

24 de agosto de 2006

"PLUTÃO PODE SER DESPROMOVIDO"
Parece que finalmente vai ser feita justiça. A despromoçao do planeta Plutão à 2ª liga não é mais do que um acto que há muito deveria ter sido executado.
A mim, bastantes vezes me lixou a vida, aliando-se a Saturno e colocando-se entre Vénus e o Sol. A coitadinha da nossa abelha astróloga, nem sequer sabe o que há-de dizer para nos consolar, nessas ocasiões.
É para ver se estes astros aprendem !
23 de agosto de 2006
Este ano, vi o Verão acontecer diante da minha janela. Gente de calções e sapatilhas a caminho da praia, restaurantes que fecharam desejando aos clientes "Boas Férias"...
Em troca, tenho um manuscrito na frente.
You'd better be good, baby... Ou vais ter que me ouvir cada vez que te olhar para a capa e me lembrar que deixei o mar à espera!
(lol)
P.C. "Costa da Caparica"
20 de agosto de 2006
Chego ao fim da sua escrita, a pilha de páginas que cresceu desmesurada desde a primeira palavra. Já não é meu e ainda o não acabei. As personagens vivem o que têm de viver e tudo o que eu lhes planeei como destino existe apenas vagamente. Uma mulher negra surge do escuro de uma porta que dá sobre uma passagem, uma irmã abraça outra dizendo: "Veja o que me fizeram? Já nem sou mais mulher", enquanto por detrás dela, o rio Preguiças faz juz ao nome...
Encontro por acaso na net, uma imagem do lugar exacto onde estas duas mulheres choram e contam uma à outra as vidas separadas que tiveram.

Mais uns dias e não haverá mais nada para contar. Apenas rever. O círculo fecha-se para sempre e o livro será o que tiver de ser.
Há qualquer coisa de triste nesta alegria.
18 de agosto de 2006
PAREDES DE COURA RULES
Foi o festival português com o melhor cartaz.
Por ele e pelo espaço envolvente, aguentámos a chuva, as casas de banho impossíveis, a pavorosa comida obrigatória que era vendida no recinto (destaque para a barraca que vendia lasagnas que lembravam um cruzamento entre uma alforreca morta com um ninho de vermes e para a inacreditável 4EVER COLA...).
Os melhores concertos foram, para mim, os !!! (chk chk chk), uma explosão de energia e ritmo em palco; Yeah Yeah Yeahs, com a sua maravilhosamente maluca vocalista, os Bloc Party. E claro, o Morrissey (dispensava-se a saída de diva, desde o meio de uma canção até ao Mercedes estrategicamente à espera, mas enfim... Sem isso, imagino que não tivesse sido Morrissey).
Um festival memorável que justifica os quilómetros que o pessoal aqui do sul tem de fazer, mapa acima.
Se a coragem não faltar para o ano há mais.

13 de agosto de 2006
Há anos que leio os artigos da Luísa Schmidt no EXPRESSO. Graças a ela fui abrindo os olhos para a destruição ambiental que os governos, um após outro, aceitam, quando não a promovem. Esta semana volta a falar do descalabro do litoral, além de um duvidoso negócio de instalação de uma Plataforma Não-sei-do-quê em terrenos agrícolas e de reserva ecológica na zona de Castanheira do Ribatejo.
Como os governos andam sempre a reboque dos jornais, nomeadamente do referido semanário, fico sempre admirado como é que tem sido possível ignorar os seus avisos e análises ao longo de todo este tempo. Mas, sim, foi possível. Ainda há margem para a surdez.
É por isso que Tróia avança nas condições em que avança e que uma cimenteira continua, como um cancro, em plena serra da Arrábida. Imagino que todos os ministros dirão a mesma coisa: "é difícil, ir contra os interesses instalados, ou direitos adquiritos, ou simplesmente contra uma pilha de dinheiro que pressiona, manipula e, se for preciso, acena com lugares na administração das suas empresas, quando a vocação para o serviço público acabar". Pois, de facto. Alguns de nós é que imaginávamos que eles tinham sido eleitos para isso.
Tal como na Cultura e na Educação, este governo tem uma prestação fraquíssima no Ambiente. Calculo que seja por "não se poder travar o progresso". Uma cavaquice, portanto.
10 de agosto de 2006
O obviamente insano presidente da Madeira (nome real do cargo, uma vez que "rei" e "imperador" seriam inconstitucionais) apelou mais uma vez a todos os empresários que quiserem fugir aos impostos em Portugal. Quem achar que andar a pagar o que a lei fiscal determina não é bom, que se transfira para o domícilio fiscal da Região Autónoma da Madeira. "É que aqui nem sequer há bufos», afirmou. Recorde-se que na Madeira o IVA varia entre os 15%, 8% e 4% contra 21%, 12% e 5% aplicados de norte a sul do País. No IRS a diferença representa menos 6 pontos percentuais no escalão máximo (fonte DN/Diário Digital, jornais actualmente colados à direita portuguesa, depreendo que insuspeitos, portanto).
Há amigos madeirenses que acham que se exagera ao ligar a este tipo de ideias, mas a verdade é que Jardim simboliza o lado pior da democracia: o ter de aturar desaforos de um político sem vergonha e que se acha (e é) imune às regras que regem os restantes habitantes do seu país. A atitude dele deveria encher de vergonha quem tem de habitar no arquipélago e que acredita que se pode desenvolver uma região sem atropelos constantes a tudo o que a maioria dos portugueses se habituou a considerar como valores fundamentais no pós-25 de Abril. A honestidade, por exemplo.
De qualquer maneira, não seria preciso ele vir lembrar que enquanto este governo por lá se mantiver a corrupção e a pouca-vergonha serão bem vindas. Há mais de 9 milhões de outros portugueses que estão fartos de saber isso. Diria até, muito fartos!
8 de agosto de 2006
Para os que não vão de férias este mês, há peças em cena.
Por exemplo, esta:
Théâtre des Oreilles_Oú habite le théâtre?
3, 4, 10 e 11 de Agosto às 21h30
Informações aqui
7 de agosto de 2006
Leio na folha online que um actor participante numa coisa que está a passar na SIC (creio), Cobras&Lagartos, invadiu os estúdios Projac, da Globo, em "sunga", disparando tiros para o ar.

Imagem de Dualib em carteira de motorista
"Estou me sentindo um pouco isolado e espero que a minha família e o Corinthians me ajudem", afirmou Dualib, que foi transferido ontem da 32ª DP (Jacarepaguá) para um centro de detenção provisória na zona norte do Rio. Dualib vai responder processo por tentativa de homicídio e ameaça e deve aguardar a decisão da Justiça detido. O ator afirma, no entanto, que só atirou para o alto e contra alguns vidros. "Tive um surto artístico", classificou. Ontem, ele não recebeu nenhuma visita da família. Ainda no começo da tarde, o presidente do conselho deliberativo do Corinthians, José de Castro Biggi, aprovou a expulsão do ator, que era "conselheiro vitalício" do clube.
A mãe de um actor português de quem não me lembro o nome, mas que é amigo do Santana Lopes, já mandou deitar fora todos os calções de natação do rapaz. "Gosto muito do meu filho, por isso, já fui ao Rosa&Teixeira para que lhe fizessem calções com perna, às riscas verdes e cor-de-rosa".
Ser actor não é para qualquer um. A provar isto estão as declarações de uma jovem actriz de Morangos com Açúcar, que se passeia pelo Algarve com o namorado. Sobre a preparação para o papel que desempenha na novela, face ao que executava na novela anterior, declarou: "Voltei a usar o cabelo mais comprido. Fiz extensões e estou com um tom diferente. Não tive de fazer uma grande mudança?. A miudagem que assiste só para lhe ver o corpinho concorda com este método.
5 de agosto de 2006

O MILAGRE DE OURIQUE
Numa tentativa de provar que ainda há pessoal vivo no ministério da cultura, a despeito da ausência de sinais vitais desde o início do mandato, a ministra lá assinou um despacho que permite a exumação dos ossos de Afonso Henriques, avô de todos nós. Desconheço o interesse dos investigadores da Universidade de Coimbra por este pedido. A não ser que queiram descobrir como é que se pode tropeçar nos próprios pés durante 800 anos, não estou a ver. Mas enfim, cada um sabe de si, e a investigação universitária em Portugal vale o que vale. A ministra, é que num rasgo de garantias metodológicas exigiu o cumprimento de uma série de medidas de cautela no processo. Uma lista extensa, ao que consta. O último ítem terá sido, porém muito claro, embora misterioso e exigiria especificamente a proibição de Paulo Portas posar em lingerie finlandesa, ao lado das ossadas, ostentando ao pescoço um letreiro a dizer "Sou chegado no Retro - Porto Galinhas for ever!". Manuel Monteiro poderá ter vindo protestar por não ter sido referido na lista de proibições.
4 de agosto de 2006



TROCA-SE UM DIA DE ESCRITOR POR UMA TOALHA NA PRAIA
As minhas vizinhas devem imaginar que vivo da droga ou do desemprego. Eu no lugar delas também era capaz de pensar o mesmo, se visse todos os dias, de manhã à noite, um tipo que não sai de casa, assomando, desgrenhado, à micro-varanda para avaliar se o Verão ainda lá está, ou para tentar avistar o carro que estacionou no mesmo sítio, muitos dias atrás, e onde os pombos desenharam com excrementos "Welcome to the real world".
Se alguém quiser uma vida de escritor com romance para entregar na gráfica, JÁ,JÁ, e que ganha paralelamente o pão como argumentista com deadlines tão pequeninos que seria preciso uma lupa para os ver, que avance. Não que eu não goste desta tortura. Mas, hoje, só hoje, trocava a conversa com as minhas personagens por um lugarzinho na areia...
2 de agosto de 2006
A rapaziada que se divertiu a torturar e a matar um transexual do Porto foi condenada a 11 e 13 meses de internamento num "estabelecimento". A descrição do crime colectivo foi elucidativa. Ao longo de vários dias foram ter com o toxicodependente, batendo-lhe primeiro, porque tinham curiosidade "em ver um gajo com mamas" depois voltaram a agredi-lo com gravidade. Regressaram ainda para lhe atirar com barrotes de madeira para cima e como ele estava inanimado, atiraram-no para um poço, juntando-lhe os barrotes para ter a certeza de que se afogaria. "Uma brincadeira de mau-gosto", na opinião benevolente dos juizes. Julgo que se refeririam ao gosto da água estagnada a entrar nas narinas, boca e pulmões da vítima ferida, até que a morte por asfixia sobreveio.
A mãe de um dos meninos vai recorrer da sentença. "Muito pesada".

Jorge Miguel Gonçalves (foto) in Público
1 de agosto de 2006
ABOLIR É PRECISO
Apesar de ter sido oficialmente abolida a escravatura no Brasil a 13 de maio de 1888 (em Portugal o processo iniciou-se em 1854, com os escravos pertencentes ao Estado, a Igreja seguiu o exemplo dois anos mais tarde e finalmente a lei foi promulgada para todo o país em 25 de Fevereiro de 1869), ela continua a existir, sob formas um pouco diferentes, nalgumas regiões. Sobretudo, nos estados de Mato Grosso e do Pará, Da Agência Brasil, encontrei esta notícia, já com algum tempo. Mas que retrata uma situação longe de ser ultrapassada.
"Governo propõe a fazendeiros compromisso para acabar com escravidão
A reunião entre o ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo de Tarso Vannuchi, do Trabalho e
Emprego, Luiz Marinho, e o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi (PPS), resultou em uma proposta de parceria
com as unidades produtivas do estado para erradicar o trabalho escravo na região.
O Mato Grosso foi o estado brasileiro em que mais trabalhadores foram resgatados do trabalho escravo no ano
passado. Os proprietários de terra serão convidados para assinarem um termo de compromisso pelo fim do trabalho
escravo. (...)
As unidades produtivas que não assinarem o pacto serão rigorosamente fiscalizadas pelos grupos especiais de
fiscalização móvel do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). De acordo com o ministro do trabalho, Luiz Marinho,
existem no Brasil cerca de 25 mil trabalhadores em situação análoga à escravidão. "Olhando o mercado de trabalho
brasileiro nós estamos falando de um residual. Mas é um residual que incomoda, envergonha e que nós precisamos
acabar", afirma Marinho.
Em relação ao incidente ocorrido no dia oito de fevereiro, quando uma ação da Polícia Militar do Mato Grosso atacou a tiros
o Grupo Móvel de Fiscalização do MTE, Marinho afirmou que o proprietário da fazenda onde houve o conflito induziu a
polícia militar ao erro.
"Tanto para nós, do governo federal, quanto para o governo do estado, é um fato isolado e que nós temos que tratar como
fato isolado. O que é importante para nós é trabalharmos conjuntamente para avançarmos no combate ao trabalho
escravo e projetarmos no tempo uma meta para a erradicação", afirma Marinho."
Pois.
Para saber mais sobre este assunto ler AQUI
Quem andar por terras mineiras, dê um salto até Belo Horizonte (Minas Gerais). De 10 a 17 de Agosto decorre a feira do livro. A nuance para nós, que também temos feiras país afora, é que os programas culturais começam todos os dias às 9.30h da manhã e só acabam à noite. Além dos inevitáveis lançamentos, existe ainda um grande número de espectáculos (teatro, música, contadores de histórias) que atrai o público, non stop, até junto dos livros.
Belo Horizonte é uma belíssima cidade, capital da região mineira, com gente acolhedora e uma população afável. Destaque para a arquitectura do centro da cidade, desenhada por alguns dos grandes nomes da arquitectura brasileira.
A mim, pessoalmente, tem zonas que inexplicavelmente me fazem lembrar Lisboa. Sobretudo a zona do Jardim da Estrela, av. Álvares Cabral, por aí.
Amigos que escrevem para cá: o e-mail mudou. Devido à carga brutal de spam e ao facto de eu não querer comprar Rolex, aparelhos para expandir a anatomia ou responder a 200 mensagens de Olga, a boneca virtual, fazem com que vos diga que nos mudamos para o gmail.
O endereço é bestialmente difícil de fixar, mas ainda assim: prazerinculto@gmail.com
Fiquem à vontade.
27 de julho de 2006
"A pianista Maria João Pires abandonou o Projecto Educativo de Belgais, que desenvolveu no concelho de Castelo Branco, e decidiu ir viver para o Brasil, onde já pediu a autorização de residência." in Público
Esta partida para o exílio de uma das nossas maiores pianistas é sintomática do desafecto nacional pela iniciativa e pelo talento. Se olharmos a história vemos que os melhores foram sempre ou quase obrigados a partir para terras onde pudessem respirar. Existir, sem que a mesquinhez nacional os puxasse constantemente para baixo. Portugal é, de facto, como o deus mitológico que comia os seus filhos à nascença. Não nos amamos. Não queremos ver a excelência, muito menos distingui-la publicamente.
Maria João vai para a terra da energia do Olodum, das baianas que nos destroem o palato com os seus acarajés e para os domingos eternamente em festa, de caruru em caruru.
Os meus amigos bahianos é que têm sorte. E, aqui para nós, trocar Castelo Branco por Salvador da Bahia, não é uma troca, é um prémio.
Pena que ,não tarda nada, descubra que a saudade se instalou clandestina no quarto da empregada. Afinal foram os portugueses que inventaram a palavra. Percebe-se como.
25 de julho de 2006

O DESTINO DAS ESTRELAS
Hoje fiquei a saber duas coisas.
A primeira que o livro da Fátima Lopes está em primeiro lugar no top de vendas. É sempre tocante ver nascer uma escritora numa cara tão familiar.
A segunda que amanhã, de acordo com a Maya (outra que anima tão bem as manhãs) vou ter um problema de varizes. E eu que nem sabia que as tinha. Devem-me nascer esta noite, com certeza...
Só por isto já vale a pena não emigrar. Sim, senhora. Grande dia...!
22 de julho de 2006
Tomo o pequeno-almoço e leio "A MANCHA HUMANA" do Philip Roth. Há que tempos que andava para comprar este título. Aconteceu, ontem. Na Fnac, essa espantosa armadilha para as carteiras de quem gosta de livros, discos e filmes. Adiante.
Às vezes é difícil definir o que é um bom escritor. Um formidável escritor. Geralmente, não nos lembramos de nenhum, ou sempre do mesmo. Mas, hoje, enquanto iniciava a leitura deste livro, lembrei-me dessa questão. Um bom escritor é aquele que carrega o gigantesco peso de uma língua nos braços como se segurasse um recém-nascido. Balança-a e mostra-a aos convidados, que somos nós, os leitores, como se fosse o pai e a língua acabasse de nascer. E mais: ainda mal começa a gatinhar, e já nós conseguimos ver todo o seu destino formidável. Os grandes escritores são simples. Porque extraordinariamente complexos. Nós, os que escrevemos (eu, pelo menos) ficamos sempre calados de admiração por este domínio da palavra e do conteúdo. Tomamos consciência do tempo e do talento que serão precisos para fazer o mesmo. E duvidamos seriamente de um dia nos aproximarmos desta "simplicidade". E o pior é que não adiantaria imitar. A Arte não se compadece com a imitação. E esta é a maior armadilha da escrita. A maior parte dos livros publicados são escritos por antigos leitores. Por vezes, por pessoas que ganham a vida a redigir notícias ou a elaborar spots publicitários. Confundem o teclar com o "escrever". A admiração pelo talento. Porque leram; porque querem reproduzir essa admiração. E é louvável este gesto, no sentido que pretende apenas retribuir o que se retirou com a leitura de tantos livros. Mas a Literatura é outra coisa. Está para lá da vontade . Mesmo da boa vontade.
O Philip Roth não é uma "leitura de Verão". Nenhuma editora o lançaria neste período de vendas. O tempo é de sol, mar, bronzeadores e revistas fúteis. Tempo de livrinhos.
Há um tempo para tudo. Mesmo para a distracção do calor.
O Verão é que passará depressa e o nosso tempo de vida será escasso.
20 de julho de 2006
19 de julho de 2006

BOAS FÉRIAS SR. DOUTOR!
Hoje, o presidente da república convidou, por nossa conta, os cheer leaders do parlamento. No final, pareciam todos muito satisfeitos uns com os outros. Amanhã vai tudo de férias. Dois meses. Devem estar exaustos. Não têm a vida regalada, por exemplo, dos professores, que continuam a trabalhar na papelada, depois de terem contido a enxurrada de hormonas adolescentes durante 10 meses.
Claro, que pelo caminho, ficamos com um conjunto de leis importantes por aprovar. Mas deviam ter o cu doído. De tanto o esfregar de umas cadeiras para as outras.
Vão lá a banhos, vão. Quando voltarem, estamos cá de novo para vos pagar o brutal esforço.
18 de julho de 2006
O Elogio da Ginja, o "tratado afectivo-gastronómico-literário" de Paulo Moreiras sobre o fruto e a bebida que foi recentemente editado pela QuidNovi, numa edição acompanhada pelas excelentes fotografias de Paulo Cunha, será lançado em Óbidos, uma das capitais nacionais da Ginjinha, no próximo sábado, dia 22, pelas 18.00h, no Museu Municipal.
O livro é óptimo e o seu autor também. Conjugação rara.
17 de julho de 2006
o país desmembra-se, derrete. famílias, as de gente livre e as de obrigação, empurram-se sobre o alcatrão escorregadio do mapa, em direcção às praias, aos festivais, à avó a quem se começa a telefonar em Junho e que tem um grande quintal, a mesa sempre posta e que fica contente por saber que a descendência não está morta, apesar do silêncio dos meses. os jornais ficam sem nada para escrever e desenterram o mexerico, escarafucham na não-notícia como quem é obrigado a tirar uma salsazinha dos dentes para manter o emprego. os livros de Verão flutuam até às prateleiras, levezinhos, levezinhos..., as páginas à prova de grãos de areia e de autoreflexão. faz tanto calor no nosso país que até as trovoadas seriam bem-vindas para alguns. mas as trovoadas são secas, não trazem nada dentro. mas que vida poderia coexistir com o agitar de asas das cigarras?
14 de julho de 2006
10 de julho de 2006
6 de julho de 2006
5 de julho de 2006
Por cá, todo o país está contente com os seus jogadores e treinador. Portugal resolveu seguir o exemplo brasileiro e deixar a França chegar à final. Mas lutaram com garra e coragem.
Não houve decepção. Apenas a ideia de que por uma vez, os lusitanos trabalharam bem.
Outros dias virão.
4 de julho de 2006
3 de julho de 2006
"O presidente da Cinemateca Portuguesa, João Bénard da Costa, cuja comissão de serviço terminava hoje, foi reconduzido no cargo." in Público.
Depois de ter batido o pé e se ter auto-declarado insubstituível, Bénard da Costa não irá para o (nosso) bem merecido repouso. O homem que nos tem chagado a cabeça com o Johny Guitar, e com o mesmo filme do Antonioni há 26 anos, semana sim, semana sim, vai finalmente cumprir o seu dever de trazer aos contribuintes o mais inovador do cinema mundial. Assim, para a semana, espera-se o maravilhoso filme "Johny Guitar" e, para entusiasmo geral, vamos assistir a mais Antonioni.
Bem-haja a ministra que fez esta cedência e o primeiro-ministro que considera a cultura uma coisa simpática para a qual ninguém tem tempo.
Cada tiro, cada melro.
2 de julho de 2006
Na minha rua, a enorme comunidade brasileira ficou calada de triste, por um momento. Foi pena, claro, ver partir o Brasil, candidato natural à copa. Mas o jogo tem dessas coisas.
Agora já se começa a ouvir, aqui em Lisboa, um "estamos com Portugal". Um voto com sotaque nordestino, paulista, baiano...
Pelo lado positivo, ficamos todos irmãos de novo. Ao menos isso.
Abraço para os amigos do outro lado.
1 de julho de 2006
Hoje é sábado e faz sol. Estou sentado em casa, como na praia, o vento levanta-se um pouco e há areia que me incomoda de vez em quando. Mas ainda assim, há entre mim e o barulho das aves que grasnam e sujam as plantas com excrementos uma arriba fóssil. Hoje é sábado e não é o sábado mais perfeito de sempre. Mas ainda assim é o final de uma semana longa, feita de dias e mais dias.
Amanhã será domingo, ou não. Que importa?

Joaquin Sorolla
29 de junho de 2006
Durante o jogo do Brasil, gabo o estilo da equipa perante os protestos da progenitura: "Desde que voltaste de lá que estás mais... "brasileiro".
Não sei por que diz isso. Só porque estou a terminar um romance que fala desse país continente, enquanto na minha mesa repousa um Guaraná Antártica, um mapa (danificadíssimo) do mesmo país e nos auscultadores toca a guitarra caipira de Helena Meirelles... É má vontade, no mínimo.
Na verdade, o que eu fiquei foi um tiquinho "maior". Mas isso não dá para ver ;)
28 de junho de 2006
Ontem, por mero acaso, visitei a Fnac à hora do lançamento do livro "Retrovisor - Uma biografia musical de Sérgio Godinho", do Nuno Galopim. Não cheguei a tempo da apresentação, mas ainda pude cumprimentar um dos meus raros ídolos. Devo-lhe horas de alegria infindáveis há mais de vinte anos (pensando bem..., bem mais de vinte anos, god damn it!). Foi o poeta dos anos 80 e cada palavra que fez o favor de nos cantar continua a fazer o mesmo sentido.
O livro é lançado pela Assírio, outra das editoras a quem devemos a melhor poesia (para não mencionar em edições antigas, o Mishima e por aí fora, no campo da prosa). Não estava lá a multidão que parece ter-se acotovelado uns dias antes por um autógrafo da Floribela, ou lá como é que se chama a rapariguita das novelas.
Por isso mesmo, é preciso abraçar os bons. E aqueles que gostam dos bons. Os que distinguem entre o hamburguer enfiado pela boca abaixo pela televisão e a obra original. Seja na literatura, na música ou noutra arte qualquer.
Seria tudo mais simples se a minoria dos que perdem tempo a escutar o mundo se unisse, passasse palavra e se mobilizasse para ir "lá" cumprimentar, dar um abraço, dizer ao artista que não está sozinho...
25 de junho de 2006
Lá passámos. À batatada e corridos a cartões do homem de amarelo, é certo.
Nas ruas, toca a buzinar e a correr para o Marquês de Pombal (rotunda do centro de Lisboa).
Apesar do jogo ter sido muito pouco jogo, ainda assim foi uma vitória. Por uns dias, Portugal vai levantar uns centímetros da calçada.
Vamos.
22 de junho de 2006
Claro que torço por Portugal como toda a gente. Mesmo pela nossa Estrelita Merchiana, que joga sozinho e adora o som das vozes excitadas com a sua corrida.
E sem perceber um boi de futebol, salta-me à vista o trabalho do treinador. A forma organizada como o gaúcho meteu os craques lusitanos a jogarem entre si.
Se aí no Brasil ainda há quem acredite que os portugueses não amam os brasileiros, desenganem-se: mais uma passagem de fase no mundial e vamos andar todos com um gigantesco "S" na camisola
;)











